quinta-feira, 8 de novembro de 2012

A filha do Seu Faceta

Meu pai riu da minha cara quando contei que havia comprado um vestido de noiva. Esfregava as mãos, animado, perguntando onde seria a quermesse e frisando que adora quentão, desdenhando do meu futuro e me chamando de caipira numa frase só.
Eu podia anunciar que seguiria com o circo - já que é praxe eu me envolver com palhaços - que ia virar hippie numa comunidade ovolactovegetariana, ou mesmo integrar as forças de "paz" em algum país assolado pela desgraça humana, mas casar era a deixa para um esquete de comédia. Pastelão. Como aquele famoso esquete dos Trapalhões, onde o finado Zacarias e o highlander Didi fazem filha e pai, respectivamente, num jogral hilário sobre os tipos suspeitos com quem a mocinha se casaria:
- Papai, eu quero me casar!
- Ô minha filha, ocê diga com quem!
- Eu quero me casar com o leiteiro!
- Com o leiteiro ocê num casa bem....
- Por que, papai?

E o velho Faceta desfia um rosário de malefícios e sacanagens que as profissões listadas incutem nos candidatos a genro, sempre minando as possibilidades da filha.



Eu sempre achei, além de dispendioso, meio excêntrica a compra do vestido de noiva. Podia ser como uma jóia de família no século passado, mas hoje é mais um item fantasmagórico do que algo romântico e virginal. Um vestido de noiva carrega em si um tear inteiro de mágoas, antes mesmo de sair da loja ou do incensado ateliê do estilista famoso.


A mágoa da amiga escolhida para madrinha por ser a única solteira do grupo; a mágoa do noivo, que nem sabe do que se trata e preferia fazer um churrasco para a galera em Ibiúna; mágoa da irmã que casou grávida e usou uma bata de algodão porque era o que cabia e o marido pediu pra sair 37 dias depois; mágoa da vendedora, que aos 53 anos casou as outras mas até hoje só vestiu a grinalda, e ainda assim escondida do patrão, fez uma foto e guarda, amarelada, no fundo da gaveta de calcinhas junto com os santinhos de Santo Antônio e Santo Expedito, o das causas urgentes.

E ele dura apenas oito horas, é a roupa com o menor prazo de validade do mundo, ganhando de braçada das duvidosas malhas chinesas. Eu comprei o vestido porque estava em promoção - toda a arara por R$150,00. Eram os rejeitados, sem brilhos, sem manga presunto, sem oito saias, sem cauda. Comprei porque acho que ai menos aquele merecia uma vida melhor, que durasse anos, que fosse a estrela do casório da quermesse, ou de um cenário de Nelson Rodrigues, perturbando a cabeça de Alaíde.

Deixem os vestidos viverem!
Deêm-lhes vida após a pequena morte, aquela que acontece após os noivos se encontrarem - enfim sós - no quarto do hotel en Gramado, melhor destino com a grana de sobrou da festa e do vestido. Esqueça o malfadado trash the dress, nem mesmo os loucos rasgam dinheiro, mulher! Seja fada madrinha nas festas infantis, ou a noiva do banheiro nas noites de dia das bruxas! Ande com ele pela casa, mas deixe o vestido viver, pelo menos enquanto viver também o casamento - tecido bom e marido bom é difícil de encontrar em promoção. Vão-se os maridos, ficam os vestidos.

2 comentários:

  1. Nossa que texto incrível!

    E impossível segurar a risada lembrando dessa cena do Didi e Zacarias. Clássico!

    :)

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