quarta-feira, 19 de setembro de 2012

O brasileiro e o calor - Machado de Assis colunista convidado

Hoje quem escreve aqui no blog é meu grande amigo, Machado de Assis:
"Há um meio certo de começar a crônica por uma trivialidade. É dizer: Que calor! Que desenfreado calor! Diz-se isto, agitando as pontas do lenço, bufando como um touro, ou simplesmente sacudindo a sobrecasaca. Resvala-se do calor aos fenômenos atmosféricos, fazem-se algumas conjeturas acerca do sol e da lua, outras sobre a febre amarela, manda-se um suspiro a Petrópolis, e La glace est rompue; está começada a crônica."




Desci na mesa para falar do calor que abateu a região Sudeste do Brasil nesta semana e tem gerado toda a sorte de comentários por aí, especialmente em SP. É como se nunca tivesse feito calor no Brasil, nessa época do ano. Reclamações genéricas, gente desmaiando, desconforto generalizado nos transportes públicos e vendedores de água de coco rindo como premiados da sorte grande.




Sim, está fazendo calor. Nada mudou. Desde os dinossauros faz calor, assim como também chove e em alguns lugares neva. Por quê a comoção?

Por toda parte chovem (e essa é a única chuva) comentários de nórdicos do Brás como "Isso é um absurdo! Só mesmo no Brasil pra fazer uma temperatura desagradável dessa!", ou o clássico "Vou morar me NY! Pelo menos lá neva e as pessoas são mais bonitas!". Não quero ser inconveniente lembrando a todos que também faz calor no norte do planeta...

Enquanto isso, vejo gringos de todas as partes do globo felizes e sorridentes, com suas Havaianas de R$50,00 nos pés, suas garrafas d'água mineral, bonés e camisas exóticas, deslumbrados com os vestidos e mini-shorts das moças que tentam se livrar do calor nas bacurinhas (e costas, e pernas, e nucas).





"Fui há dias a um cemitério, a um enterro, logo de manhã, num dia ardente como todos os diabos e suas respectivas habitações. Em volta de mim ouvia o estribilho geral: que calor! Que sol! É de rachar passarinho! É de fazer um homem doido!
Íamos em carros! Apeamo-nos à porta do cemitério e caminhamos um longo pedaço. O sol das onze horas batia de chapa em todos nós; mas sem tirarmos os chapéus, abríamos os de sol e seguíamos a suar até o lugar onde devia verificar-se o enterramento. Naquele lugar esbarramos com seis ou oito homens ocupados em abrir covas: estavam de cabeça descoberta, a erguer e fazer cair a enxada. Nós enterramos o morto, voltamos nos carros, c dar às nossas casas ou repartições. E eles? Lá os achamos, lá os deixamos, ao sol, de cabeça descoberta, a trabalhar com a enxada. Se o sol nos fazia mal, que não faria àqueles pobres-diabos, durante todas as horas quentes do dia?"

Com tanta coisa mais desagradável para reclamar - impostos sem fim, buraqueira nas calçadas, O HORÁRIO ELEITORAL, o iPhone 5, Luan Santana sócio de balada na Augusta - vocês ainda perdem tempo com  o maior clichê social da História da Humanidade?

Comprem os seus Chicabom e bom calor!
Daqui eu subo. Fui!

3 comentários: